Intuição... Fogo infinito que contém a memória do universo, um banco de dados inesgotável e se cria em cada segundo. Não é fantástico? A intuição nos permite criar aquilo que nunca existiu unificando todos os parâmetros do ser entre o real e o imaginário, o consciente e o inconsciente. Mas, quem garante que o que foi intuído e criado numa obra não poderá existir? Foi o que pensei quando uma amiga publicou um retrato dela, pintado por um grande pintor. Ela disse que foi retratada de maneira premonitória e que os traços mais marcantes de seu retrato tornaram-se, justamente, os instrumentos de sua profissão. Muito interessante isso, não é mesmo? Porém, não é um mistério. Este artista foi um ser à escuta de sua intuição, ele interpretou e nos deu com sua personalidade e sensibilidade, aquilo que minha amiga possuía no intimo de seu ser. Esse artista, um poeta da mão, sonha. Lápis nos dedos sobre a página em branco, ele a captou de um modo parcial para enfim, formar um grande cenário, que veio mais tarde fazer parte da vida real. Esta obra contém com força e transparência aquilo que se encontra encerado nela. É uma imagem da qual se reteve uma densidade onírica, fazendo-a a entrar no próprio devaneio humano. E eu te digo amiga, você não se engana quanto a sua percepção dos signos indicativos de um devir, essa intuição não foi captada do nada. Não se pode apreender o não ser.
O artista, a priori à obra, conhece o devaneio meditante, o devaneio que medita sobre a natureza das coisas. Ele vivencia de perto a revelação do mundo pela luz para participar, intimamente, e, totalmente, do nascimento incessantemente renovado de um universo. Porque tudo isso é possível? O ser é sempre luminoso em razão da propagação de sua energia, calor resultante de esforços incessantes para conservar sua existência. Existem seres iluminados capazes de recriar com a simples matéria bruta e de moldá-la. Foi então que pensei nesse grande artista que fez o retrato da minha amiga. Esses seres iluminados, dos quais ele faz parte, criam, por sua vez, a vida modelando a matéria bruta à imagem de suas emoções e de suas paixões. Um artista sonhador guiado pela intuição, pela afetividade e pelo desejo. Nós sonhamos antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente toda paisagem é uma experiência onírica. Como diz Gaston Bachelard, olham-se com uma paixão estética apenas as paisagens que se viu antes em sonho. Uma psicologia das emoções estéticas inclui os devaneios materiais que antecedem à contemplação, sim são sempre os quatro elementos primordiais presente em tudo. Nesse caso, falamos do elemento fogo como um forte calor emanante de um ser sensível e que o artista captou. É assim que o mundo perde sua opacidade e ganha mobilidade quando está sob o olhar do artista.
Um artista cria a partir de seus próprios devaneios, autodeterminado pela vontade de seus sonhos, por sua vontade de poder. É por esse motivo que sua atividade é guiada por um onirismo ativo; e a matéria que o artista quer dominar não é vista como hostil e disposta a provocar penas e fadigas. Bem ao contrário, essa matéria a ser dominada é a chance de uma realização pessoal, de expansão do universo íntimo do artista, de uma demonstração da força da vontade; é o incentivo à imaginação criadora considerada o centro dos sonhos.
Posso dizer, sem inquietude, que nessa obra, nesse retrato, o tempo é indiferente, o passado, o presente, e o futuro, nos transporta à fronteira do sempre possível. É no imaginário que se desenvolvem a maior parte dos processos do espírito, que se revela como um espelho do real. Assim, mais uma vez, sob a luz de Bachelard posso dizer que a imaginação é o poder constitutivo radical que nos afirma como sujeitos e os fenômenos como objetos, é a base indispensável e essencial da produção artística; ela nos fará penetrar no intimo das coisas se pudermos nos libertar do que é material, superficial, convencional. E não foi isso que esse artista fez quando te desenhou minha amiga? A expressão artística é a potência de percepção da vida, que é a forma como o ser humano percebe-se a si mesmo e conseqüentemente o outro. Podemos encontrar o caminho da verdadeira identidade conscientes desta imensa riqueza. É preciso fazer escolhas pela razão e pela emoção, e, por conseguinte, traduzir paradoxalmente todas as informações a fim de exprimir, decodificar por si mesmo.
Entao, qual a diferença que se pode encontrar entre um artista e outro? Para o fruidor é a capacidade final de interpretação que ele utiliza. O poeta da mão é o demiurgo a serviço das forças felizes. Esse imaginário resgata o valor da “mão que sonha” produzindo realidades artísticas movida pela vontade de criar que a leva a enfrentar a resistência do mundo. A criação do artista é um estado da alma; é um ímpeto da vontade, uma ação impaciente por agir sobre o mundo. A criação do artista é o colocar o mundo em andamento, o suscitar forças que inflamam as formas, é um provocar de forças adormecidas num universo plano.
Mas, cá entre nós amiga, ficou lindo seu retrato!