O TEMPO QUE RESTA
Acabamos de chegar do cinema. O filme foi comovente. Não, muito mais do
que isso. Foi duro e provocador, porém foi genial o modo como o diretor nos levou a refletir sobre um tema tabu: a finitude humana. Evitamos a todo custo pensar
nisso, não é mesmo? No entanto, “a morte em ação”
mostrada no filme toca naquilo que a humanidade possui de mais intimo e
trágico, nos permitindo assim, vivenciar e refletir sobre o peso de nossa
finitude e a dificuldade que temos para enfrentá-la.
Há dez anos passei meses e meses
pensando nela, fui obrigada. Uma perda irreparável, algo que deveria ser
proibido acontecer: ninguém deveria perder a mãe. Ah não, isso jamais. Como
disse Carlos Drummond de Andrade: “Fosse eu Rei do mundo baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho”.
Foi só então que veio como um clarão a consciência que meu tempo
estava escorrendo... Estava? Não. Está! Foi incrível, comecei a mesurar minha existência.
É como se eu estivesse adormecida ou habituada aos acontecimentos a ponto de não ter
acesso à minha condição de mortal. Algo perturbou a lógica que conduzia a minha
vida cotidiana. Acho que foi a angústia, a visão do existir para a morte. Foi
um alerta. Somente a consciência da morte pode nos fazer viver plenamente a
vida. O homem vive como se fosse eterno, corre para fazer tudo e não faz, talvez,
o que é verdadeiramente importante, está sempre pensando no futuro esquecendo-se
de viver o presente.
Somos absorvidos pelas preocupações do dia-a-dia e flutuamos
ao sabor das modas e tendências do mundo globalizado; vivemos na superficialidade.
Acho que o homem corre para fugir de sua condição de ser finito, corre contra o
tempo, corre do tempo, acaba perdendo tempo.